Em sete anos desde a fundação, a Casa de Missão Amor Gratuito já acolheu cerca de 200 pessoas, principalmente LGBTs, que tinham como opção as ruas

Diretores e parte dos moradores da Casa de Missão Amor Gratuito de Maringá, no norte do Paraná, na quinta-feira (7). (Foto: Ederson Hising/G1 PR)

A Rua das Flores, no Jardim Maravilha, é o endereço do amor gratuito em Maringá, no norte do Paraná. Em sete anos desde a fundação, a Casa de Missão Amor Gratuito, do Projeto Camargo, acolheu cerca de 200 pessoas, principalmente LGBTs, que tinham como opção as ruas.

A iniciativa embionária para o abrigo surgiu em Umuarama, no noroeste do estado, em meados de 2004, com o reverendo Célio Camargo dos Santos, de 42 anos.

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À época, ele ainda não fazia parte da Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM), que prega a teologia inclusiva, mas já abrigava na própria casa pessoas expulsas do convívio familiar por conta da orientação sexual.

“O pecado é a falta de amor. Na mesa de Jesus todas e todos são aceitos. As pessoas genitalizaram o pecado. A gente trabalha para derrubar muros e construir esperança”, afirma.

A ida de Camargo para Maringá ocorreu em 2010, após a morte da mãe Rita de Camargo, aos 70 anos, vítima de um infarto fulminante nos braços do filho. “O último pedido dela foi para que eu seguisse a minha missão de ajudar as pessoas”, recorda, com os olhos marejados.

Ele, que mora com um companheiro, conta que a mãe nunca o tratou com preconceito por ser gay. Diferentemente da igreja protestante que frequentava. Camargo foi expulso por não o aceitarem como ele é.

“Eu tentei me matar aos 16 anos e tenho sequelas disso até hoje. Cheguei a ser exorcizado várias vezes, até com uma surra de bíblia. Tentaram tirar Deus da minha vida como fazem com muitas pessoas”, revela o reverendo.

O amor que curou Camargo, há anos tem proporcionado o recomeço para quem não enxergava mais oportunidades. Júnior César de Araújo, de 21 anos, está no abrigo com o namorado há 17 dias.

Para ele, a estadia prevista em três meses – tempo médio que as pessoas passam no local – significa uma segunda chance: a de ser quem é de verdade. “Essa casa já me deu esperança de ser alguém na vida. Nunca vou encontrar palavras para expressar a gratidão que sinto”, diz.

Júnior saiu da residência dos pais em Astorga, também no norte do Paraná, entre outros motivos, para não ouvir que era “chato” chamar o namorado de amor na frente da família. “As pessoas julgam demais. Mas se pudesse nascer outra vez, eu escolheria nascer gay de novo”, destaca.

Em 2018, o jovem vai voltar a estudar para completar o ensino médio. Nos planos, após a passagem pelo abrigo, estão se casar, ter um lar, adotar uma criança e se tornar um médico. “Aqui é meu ponto de partida”, afirma.

Do alto de suas diferenças, como diz o reverendo, todos são iguais. Prova de que não há distinção é que Aline Honório, de 28 anos, ficará até março do ano que vem na casa com o marido e os dois filhos, de um ano e quatro meses e 4 anos.

Eles saíram de Salto Grande-SP, na divisa com o Paraná, em busca de emprego e para proporcionar aos filhos um futuro melhor do que na cidade sem semáforos.

O marido está trabalhando como açougueiro. Ela começou a vender produtos de beleza para fazer um caixa em busca do novo lar.

“Gostamos muito daqui. Nunca imaginei que seria desse jeito. Já me perguntaram o que eu estava fazendo aqui com meus filhos. Eu digo que essa casa fez a gente conhecer o que é família”, indica Aline.

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Na quinta-feira (7), a casa de três quartos e quintal grande abrigava 11 pessoas. Entre elas, um adolescente de 16 anos expulso de casa. Ele está na casa com o namorado, que já conseguiu um emprego.

Um dia antes de chegar ao abrigo, os dois dormiram abraçados debaixo de uma marquise, num frio de 12ºC, por não terem onde ir. “O amor é cura para esse mundo com tanto preconceito e discriminação”, diz o reverendo Célio.

Fonte: Tribuna PR

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