Em busca do estrelato, Maycon Rodrigo da Cunha deixou a casa da família no Paraná, em 2011, e desembarcou no Rio para investir na carreira de ator

O rapaz, hoje com 32 anos, acabou se tornando o braço-direito de Antônio José de Barros Savino, um golpista de 48 anos acusado de enganar e explorar jovens que também sonhavam com a fama. Há três anos, Maycon está foragido e se esconde das autoridades. Já Savino está atrás das grades há dois anos e meio.

A dupla é acusada de atrair os jovens pela redes sociais — todos de fora do Rio, de estados como São Paulo e Espírito Santo — com a promessa de torná-los atores famosos. Já na cidade, os rapazes eram mantidos numa casa e em um apartamento sob total controle de ambos. As vítimas tinham os celulares confiscados e eram obrigadas a fornecer as senhas de suas redes sociais. Segundo as investigações, Antônio falava com as mães de alguns dos rapazes se passando por eles e pedia que elas enviassem dinheiro para os filhos.

Os cartões bancários dos rapazes eram confiscados e o golpista controlava todo o dinheiro embolsado por eles em trabalhos de garçom e em figurações, além das quantias enviadas pelas famílias. A situação na casa foi descoberta em 2015, em uma inspeção do Ministério Público do Trabalho. Os cartões bancários dos oito jovens que viviam na casa foram encontrados com Maycon, que auxiliava Antônio a controlá-los. Uma das vítimas que viviam na casa era o irmão mais novo do rapaz, que relatou ter sido o próprio Maycon o responsável por trazê-lo para o Rio. No meio artístico, o grupo era conhecido como “Bonde das Barbies”, em alusão, principalmente, à beleza dos jovens.

Em seu depoimento à Justiça, um dos rapazes contou que Antônio José passou a usar Maycon — descrito por ele como uma pessoa ardilosa — como uma espécie de gerente, ao perceber que ele tinha “potencial”. Outra vítima contou que Maycon, que vivia na casa, era responsável por impor as regras, mas ele fazia questão de dizer que as orientações vinham de Antônio, que morava num outro imóvel.

Maicon e Antônio: dupla explorava jovens
Maicon e Antônio: dupla explorava jovens Foto: Divulgação

Ameças até a parentes

A hoje procuradora de Justiça Christiane Monnerat, responsável por investigar e denunciar a dupla, frisa que a participação de Maycon foi essencial para que Antônio conseguisse enganar e manter as vítimas sob controle. O chefe do grupo é acusado de ameaçar os jovens e seus parentes.

Segundo a promotora, Maycon era o responsável por escolher os jovens que seriam atraídos por Antônio e tinha o papel fundamental de reforçar na cabeça das vítimas a necessidade de “cega obediência” a Antônio como a única oportunidade que eles tinham de alcançar o estrelato.

— O Maycon é que ficava nas redes sociais, escolhendo de forma muito cuidadosa as vítimas. Essa escolha de jovens com perfis bem específicos foi fundamental para o sucesso da empreitada — pontua a procuradora.

As investigações revelaram que quando a dupla acreditava que alguns dos jovens poderiam denunciá-los, faziam registros falsos, acusando-os de crimes que não tinham cometido, apenas com o objetivo de amedrontá-los.

Mãe de jovem perdeu R$ 500 mil

Além de ameaçar e enganar os jovens, Antônio também foi acusado pelos crimes de estupro de vulnerável e violação sexual mediante fraude contra dos dois jovens. Maycon também foi acusado pelos delitos por, segundo o MP, ter induzido as vítimas. Ambos acabaram absolvidos, pois o jovem vítima de estupro não prestou depoimento à Justiça e o outro não narrou o abuso sexual em seu relato durante audiência do caso.

A mãe de um dos meninos aliciados por Antônio teve um prejuízo de R$ 500 mil. Além de transferências bancárias feitas ao longo de quase um ano e meio em que o rapaz viveu com o golpista, ela afirma que perdeu dois carros que havia deixado com o filho e foram confiscados pelo chefe do grupo.

A mulher, que prefere não ser identificada, afirma que transferiu para o golpista o dinheiro da venda de um imóvel, além da quantia de seu FGTS, retirado após ter pedido demissão.

Casa onde golpistas abrigavam as vítimas
Casa onde golpistas abrigavam as vítimas

— Ele levou todo o dinheiro de uma vida, me afundou completamente — lamenta.

A procuradora Christiane Monnerat classifica a investigação como inédita.

— Muitos podem achar que todos queriam se dar bem, que era o caso do famoso teste do sofá, mas não era a realidade ali. Eles usaram todos os artifícios para prometer às vítimas que teriam uma carreira de sucesso, fizeram uma verdadeira lavagem cerebral. Foram todas enganadas e suas famílias, também. Foi uma investigação muito difícil — relata ela.

Os detalhes do crime

Em abril deste ano, Antônio José foi condenado pelo juiz Marco Couto, da 1ª Vara Criminal de Jacarepaguá, a 32 anos e seis meses de prisão pelos crimes de estelionato, praticado diversas vezes, e também por frustração de direito assegurado por lei trabalhista (treze vezes).

Já Maycon foi condenado a três anos e seis meses de reclusãoem regime fechado pelo crime de estelionato (praticado quatro vezes). Ele foi absolvido pelo crime de frustração de direito assegurado por lei trabalhista.

Na sentença, o juiz afirmou que Antônio José agiu “desmontando os sonhos das vítimas”, sem qualquer preocupação com o sofrimento alheio. O magistrado afirmou, ainda, que as circunstâncias do crime são desastrodas e as consequências são graves, “na medida em que muitos dos envolvidos restaram traumatizados pela ação do réu”, conforme ficou provado pelos seus depoimentos.

Após a inspeção do Ministério Público do Trabalho, todos os jovens que viviam com Antônio — oito deles na casa em Curicica e dois, em um apartamento na Vila do Pan — foram libertados.

Fonte: Extra