Desde 1987, grupos suprapartidários com viés fisiológico serviram de base ao PMDB, ao PSDB e ao PT

O atual “centrão” que apoia Alckmin é integrado pelo DEM de Rodrigo Maia

O alinhamento recente de partidos como o PP, o PRB, o PR e o DEM à pré-candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB) à Presidência, trouxe novamente à tona o conceito de “centrão”, termo frequentemente utilizado na nossa trajetória política e que já denominou composições políticas bastante distintas.

Muitos argumentam que este bloco não tem nada de “centro”, mas seria apenas um arranjo de partidos com viés de direita. Ao se julgar a trajetória deles nas últimas eleições presidenciais, o que os une é menos a roupagem ideológica e mais o fisiologismo, com exeção feita ao DEM, sigla alinhada ao projeto do PSDB desde a primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1994, quando ainda se chamava PFL.

A identificação histórica do DEM/PFL com os tucanos é uma exceção no bloco. Outras legendas como o PR, o PP e o PRB apoiaram a eleição de Dilma em 2014, e mantiveram sua veia governista no Congresso ao apoiar majoritariamente a ascensão de Michel Temer ao poder. Hoje, apostam em Alckmin, mas chegaram a flertar com Ciro Gomes, do PDT. Fica claro que ideologia não é a prioridade dessas legendas.

O termo “centrão” começou a ser utilizado durante a Assembleia Constituinte de 1987. Assim como o atual, era um grupo suprartidário com perfil de centro e de direita que uniu-se para apoiar o então presidente José Sarney. O objetivo era combater as propostas maios progressistas na redação da nova Constituição.

O grupo era comandado pelo PFL e pelo PMDB de Sarney. Integravam ainda o bloco o PL, futuro PR, o Partido Democrático Social, sucessor da legenda da ditadura ARENA, o PTB e o Partido Democrata Cristão.

Embora o termo “Centrão” não tenha sido usado com tanta frequência nos governos petistas como atualmente é empregado, vez ou outra a mídia o utilizava para tratar de um bloco suprapartidário com viés fisiológico. Em 2006, matérias afirmavam que Lula ensaiava a criação de um “novo centrão”, ao garantir o apoio de partidos que protagonizaram a crise do “mensalão”, entre eles o PP, o PL e o PTB, inflados pela entrada do PMDB como eixo central de governabilidade.

O termo não foi empregado com frequência durante os governos de Dilma, embora a aliança com o PMDB e outros partidos mais fisiólogicos também tenha sido a regra de suas gestões.

Um dos mais governistas dos integrantes do atual “centrão” é o PRB, que participou de três coligações lideradas pelo PT. Em 2006, a legenda ligada à Igreja Universal apoiou a reeleição de Lula. Nos dois pleitos presidenciais seguintes, participou das duas campanhas vencedoras de Dilma Rousseff.

Decisvo para o apoio a Alckmin, o PR, formado a partido antigo Partido Liberal e do Prona, parece carregar a “alma” do “centrão”. Apoiou todas as candidaturas favoritas e vencedoras desde a eleição de FHC, quando a legenda ainda era o Partido Liberal, fundado em 1985. Após participar da base do governo tucano, o PL participou da coligação de Lula em sua primeira vitória, tendo inclusive indicado o vice-presidente José Alencar para a chapa do petista.

Curioso que hoje o PR, antigo PL, indique para vice de Alckmin justamente o filho de José Alencar, Josué Alencar. Empresário como o pai, ele já teve seu nome sondado pelo PT como um possível aliado para as eleições deste ano.

Em 2005, José Alencar deixou o PL para filiar-se ao PRB, criado em 2003. Foi novamente vice de Lula. Nas eleições de 2006, o partido do cacique Valdemar Costa Neto, condenado pelo “mensalão” do PT, não apoiou formalmente o PT, mas também não migrou para a oposição. A legenda foi rebatizada no fim daquele ano de Partido da República. Em 2014, ele voltaria a se coligar com o PT.

Outro partido importante do atual “centrão”, o PP também já esteve com os petistas. Em 1998, quando ainda se chamava PPB, o partido apoiou formalmente FHC. Quatro anos depois, aliou-se a Ciro Gomes no primeiro turno, e com o tucano José Serra no segundo. Em 2003, rebatizou-se de PP.

No primeiro mandato de Lula, o PP participou da base do governo. A partir de 2011, passou a fazer parte da gestão de Dilma e apoiou formalmente a petista em 2014.

Antigos aliados do PT, o PP e o PRB apoiaram formalmente o impeachment de Dilma. A exceção foi o PR, cuja Executiva Nacional decidiu pela orientação contrário ao afastamento. Ainda assim, a legenda de Valdemar Costa Neto votou majoritariamente a favor da saída de Dilma. Foram 26 votos favoráveis ao impeachment e 10 contrários.

Com a ascensão de Temer, o bloco ganhou contornos ainda mais conservadores, até pela liderança de quadros do DEM como Rodrigo Maia, presidente da Câmara, e ACM Neto, prefeito de Salvador. Para os demistas, a escolha por Alckmin faz sentido ao se considerar a trajetória do partido em eleições presidenciais. Por outro lado, o resto do bloco mostra que pode mudar de lado conforme o sabor dos ventos.

A aliança com Alckmin promete algumas vantagens ao bloco. A provável presidência da Câmara e do Senado em uma eventual vitória do tucano, além da vice-presidência, são alguns dos cargos prometidos. Por outro lado, o presidenciável do PSDB terá de lidar com questionamentos relacionados à corrupção, pois os caciques dos “centrão” respondem a ao menos 13 inqúeritos por corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes contra a administração pública.

Uma derrota do tucano nas eleições pode até mesmo reanimar o grupo a buscar uma nova saída fisiológica. A se julgar pela trajetória recente dessas legendas, a situação é sempre mais confortável que a oposição.

Fonte: Carta Capital

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