Na era do digital, artefatos como revistas em quadrinhos, CDs, DVDs e videogames conservam alto valor afetivo e econômico

Fábio Gomes Ribeiro com uma das várias estantes onde guarda sua coleção de 20 mil quadrinhos — Foto: Arquivo Pessoal/Alice Vieira

“Quadrinhos eu levo a sério, é uma compulsão. Eu tenho que ter tudo no máximo possível”, confessa Fábio Gomes Ribeiro, de 43 anos, diante de um acervo com cerca de 20 mil revistas em quadrinhos que ele guarda em três cômodos inteiros de seu apartamento, no bairro do Marapé, em Santos.

Ribeiro é um exemplo de como ter uma coleção tradicional, com objetos físicos, vai muito além de simplesmente ler, ver e ouvir obras em formato digital. Em plena era do streaming, colecionadores como ele investem altas quantias em itens que, mesmo ocupando muito espaço no mundo real, possuem ainda mais valor afetivo do que financeiro.

Escrevente do Tribunal de Justiça de São Paulo, Fábio Ribeiro começou sua coleção de quadrinhos com gibis da Turma da Mônica, quando tinha 10 anos. Era um hábito não se desfazer das revistas, que ele guardava em pilhas. “Eu já tinha esse bichinho do colecionador desde pequeno, mas era com quadrinhos específicos. Se livrar das revistas nunca foi uma hipótese”, admite.

Ribeiro garante que conseguia ler todo o material que comprava, mas com o sucesso alcançado pelos filmes de super-heróis, a oferta de quadrinhos aumentou bastante e se tornou complicado ler tudo. “A produção mensal é muita coisa, não consigo acompanhar. Estou quase saindo de colecionador para virar acumulador”, brinca. Ele também deu início a uma coleção de action figures (bonecos de ação), e conta que teve receio de “ficar neurótico” para ter todas as séries completas dos personagens. Diferente do modo como age em relação aos quadrinhos, nesse caso ele se controla e compra apenas itens pontuais.

Como o foco das coleções de Ribeiro sempre foram os super-heróis, ele praticamente completou todas as que queria até o momento. Seu objetivo agora é ir atrás de coleções que antes desprezava, como Turma da Mônica, da Editora Abril, de 1970 a 1987, e personagens da Disney.

Por se dedicar muito aos quadrinhos, Fábio Ribeiro compra as edições logo que saem. Quando não consegue, espera no máximo um ano, por acreditar que há quadrinhos que vendem muito rápido e depois somem. “Colecionador tem que ter paciência. Você sempre vai achar o que quer. Só que tem que estar disposto a pagar. Eu, particularmente, não gosto de esperar pra não correr risco”, diz.

Seguindo essa linha de raciocínio, o fotógrafo e produtor de cinema e televisão Marcelo Belluzzo, mais conhecido como Panda, de 52 anos, possui uma coleção de aproximadamente 9 mil CDs que incluem MPB, rock, pop, rock alternativo e jazz, além de 3 mil DVDs englobando obras que vão de clássicos a filmes de ação. Ele explica que nessa ânsia de ter os produtos o mais rápido possível, acaba sendo comum comprar itens que já tem.

Para Marcelo Panda, há sempre o risco de comprar itens repetidos em sua coleção de mais de 10 mil itens — Foto: Arquivo Pessoal/Marcelo Panda
Para Marcelo Panda, há sempre o risco de comprar itens repetidos em sua coleção de mais de 10 mil itens — Foto: Arquivo Pessoal/Marcelo Panda

Panda começou sua coleção com vinil, entre o final dos anos 70 e início dos anos 80. A partir dos anos 90, ele resolveu passar a comprar CDs. E essa mudança é justamente um dos fatores responsáveis por gerar dúvidas. “Será que eu tenho, ou pensei que tinha? Será que eu tinha em vinil e não comprei em CD? Às vezes não tenho certeza se tenho em CD, então acontece de ter a dúvida: tenho ou não tenho mais?”, conta.

De acordo com Marcelo Panda, quando o item é muito difícil de achar, costuma comprar sem pensar duas vezes. Se por acaso já tiver, volta na loja e troca por algum outro. Ele explica que prefere levar o produto e depois devolver, do que se arrepender por não ter aproveitado a oportunidade. “Eu não vou sossegar enquanto não voltar na loja e pegar. É melhor pagar pra ver”, revela.

Para evitar que esses transtornos aconteçam, o técnico em eletrônica David Rayel, de 41 anos, mantém o controle da sua coleção de mais de 130 consoles de videogames por meio de um catálogo em uma planilha em seu computador. Essa prática é importante para o acervo, porque ele expõe todos os itens em diversos eventos pelo País.

O gosto de Rayel por videogames vem da infância, na época em que os fliperamas eram populares no Brasil. Sua primeira memória afetiva foi com o console doméstico da Atari. Depois foi fazendo upgrades. “O primeiro videogame que eu tive dinheiro para comprar foi o Playstation 1. Aí eu fui na loja, paguei, levei pra casa e fiquei jogando sem parar”, conta.

Depois de adulto, Rayel passou a ter uma condição financeira melhor, e começou a colecionar os videogames que mais gostava. O grande número de peças em seu acervo, somado com o desejo de compartilhar a coleção, serviu de motivação para que ele criasse a exposição Meu Primeiro Videogame, que teve início em 2016. “Gosto quando as pessoas veem, jogam, conhecem videogames novos, ou relembram aqueles de quando eram crianças. Se eu não gostasse, sem dúvida estaria tudo trancado em casa”, afirma.

Além da satisfação de ter objetos referentes às suas paixões, Rayel diz que a coleção também serviu para atrair outras pessoas com os mesmos gostos e hábitos. Por meio de amigos, conseguiu adquirir peças que valem em torno de R$ 8 mil por um preço bem mais acessível, além de passar bons momentos com outros colecionadores. “A gente conversa, troca experiências. Quando temos videogames repetidos, conseguimos fazer trocas. O valor do console sai bem mais em conta”, explica.

No caso de Fábio Ribeiro, as amizades com outros colecionadores trouxeram a oportunidade de organizar um evento voltado à cultura geek, o Santos Comic Expo, idealizado por ele e um grupo de nove amigos com o mesmo interesse por quadrinhos. “É um hobby que flerta com objetivo de vida”, diz.

David Rayel na exposição que realizou no Santos Criativa Festival Geek, em Santos  — Foto: Arquivo Pessoal/Alice Vieira
David Rayel na exposição que realizou no Santos Criativa Festival Geek, em Santos — Foto: Arquivo Pessoal/Alice Vieira

Valores

Como os objetos de coleção estão ligados a memórias, o ato de colecionar está diretamente atrelado à afetividade. Ribeiro ainda possui em seu acervo a revista da Turma da Mônica de 1984 que serviu como ponto de partida para a coleção, quando ele era criança. Do mesmo modo, Rayel possui o console Atari que acendeu seu interesse pelo mundo dos games.

Por este motivo, colecionadores como eles não gostam de pensar no valor monetário de suas coleções, nem no destino que terão no futuro. Marcelo Panda é relutante quando o assunto é esse. “Eu não gosto, nem quero pensar nisso. Vou usufruir minha coleção até onde puder. Não tenho interesse em doar pra museu. Não adianta querer pensar nisso agora”, desconversa. Ele acredita que, mesmo com a diminuição da procura por CDs, por força de aplicativos como o Spotify, a mídia física não deixará de existir, assim como aconteceu com o disco de vinil e até a fita cassete, que volta a ser objeto de desejo.

Rayel também afirma que nunca parou para pensar no futuro de sua coleção, mas tem certeza que quer continuar expondo e aumentando cada vez mais o número de videogames de seu acervo, mesmo com a ascensão dos jogos on-line. “Minha intenção no futuro é continuar expondo, não parar. Quando eu não estiver mais aqui, vai ficar pra minha esposa e minha filha”.

Fábio Ribeiro ainda não tem um filho para herdar sua coleção, mas brinca que se um dia for pai e seu herdeiro não quiser cuidar, ou não gostar de colecionar, distribuirá seus quadrinhos entre os amigos. “Eu prefiro que fique na mão de colecionador do que na mão de leitor habitual, que vai ler e depois jogar no canto e não ligar mais. Gostaria que a coleção fosse continuada por alguém que tivesse esse mesmo sentimento afetivo”, confessa.

Gastos e despesas

Para construir e expandir uma coleção, é necessário ter dinheiro. Quando era mais novo, Fábio Ribeiro lembra que passou meses de aperto financeiro para conseguir comprar determinados títulos. “Às vezes, aparece aquela oportunidade única. Dá aquele desespero, você pensa que não vai achar mais, e compra. Só que tudo que eu queria, já tenho”.

Apesar de seu foco ser quadrinhos, ironicamente o item mais caro de seu acervo é uma action figure do Jaspion, importada diretamente do Japão. Ribeiro gastou R$ 1 mil no boneco. “Eu só queria esse da coleção do Jaspion. Ele é grande, todo cromado. Resolvi arriscar, mas foi uma loucura pra nunca mais fazer”, garante.

Já em relação aos quadrinhos, as edições mais caras são as de formato omnibus, encadernadas e contendo extras e detalhes especiais. Custam em média de R$ 300 a R$ 500, e só são encontradas no exterior.

Edições importadas de CDs também fazem parte da coleção de Marcelo Panda. Ele já desembolsou R$ 1 mil em edições de luxo, que vêm com DVD.

No caso de Rayel, ele disponibiliza parte da renda que recebe em suas duas lojas de produtos eletrônicos para a coleção, e assim vai atrás de consoles excêntricos, que têm valor ainda mais elevado. Por conta de sua exposição, muitas vezes consegue doações, e não precisa arcar com preços tão altos quando está em baixa, financeiramente.

Limpeza e manutenção

Manter uma coleção em bom estado requer cuidados específicos. Em relação aos quadrinhos, Fábio Ribeiro explica que é necessário limpar com um pano pelo menos uma vez por mês. Segundo ele, guardar quadrinhos em plástico é uma prática polêmica. “Alguns acham que conserva, e outros dizem que, sem circulação de ar, prejudica, junta ácaro. Eu coloco plástico quando a revista está um pouco deteriorada, para preservar”, diz. Além de limpa, ele procura organizar a coleção de modo acessível, que permita encontrar a edição desejada com facilidade.

Assim como Ribeiro, Marcelo Panda também gosta de manter sua coleção ao alcance. Por estar sempre em contato com seus CDs e DVDs, vê frequentemente o estado em que cada item se encontra. Para ele, não é necessário realizar uma manutenção extensiva.

Diferente de quadrinhos, CDs e DVDs, a manutenção de videogames requer um pouco mais de investimento. Por ser técnico em eletrônica, David Rayel é responsável pelo conserto e manutenção dos consoles, algo muito vantajoso para ele. “Se você pegar um Super Nintendo e tentar levar em uma assistência técnica em Santos, não vai achar. Não tem quem conserte. As pessoas não têm mais peças, porque é antigo”.

Consoles de videogames de várias épocas que David Rayel expõe nos eventos ‘geek’  — Foto: Arquivo Pessoal/Alice Vieira
Consoles de videogames de várias épocas que David Rayel expõe nos eventos ‘geek’ — Foto: Arquivo Pessoal/Alice Vieira

Fonte: G1