Moda entre os jovens, e-cigarettes são responsáveis por 2.291 casos da nova enfermidade nos Estados Unidos, com 48 mortes em cinco meses. Entenda

Ilustração de um pulmão invadido pela fumaça — Foto: Istock Getty Images

Uma “epidemia” de doença respiratória aguda, nova enfermidade associada ao vaping, tem aterrorizado jovens nos Estados Unidos, e o alerta serve também para o Brasil. A EVALI (sigla para E-cigarette or Vaping product use-Associated Lung Injury, ou doença respiratória associada ao uso de cigarros eletrônicos ou vaping), como foi chamada, apareceu pela primeira vez em julho deste ano, em Wisconsin, norte do país. Foram quatro casos de pacientes com uma doença respiratória não determinada. Em agosto, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) começou a investigar mais uma dezena de novos casos e os números não pararam de crescer. O último boletim, divulgado dia 4 de dezembro pelo CDC, aponta para 2.291 casos em 50 estados, na capital (Washington D.C.) e em dois territórios (Porto Rico e US Virgin Island). O número de mortes já chegou a 48 em 25 estados e na capital. O que todas essas mortes e enfermos têm em comum? O relato de pacientes que utilizam cigarro eletrônico. As autoridades de saúde americanas buscam os culpados em meio aos diversos aditivos químicos que se unem à nicotina nos cigarros eletrônicos. O acetato de vitamina E, óleo usado para diluir o THC, substância psicoativa da a maconha, é a toxina letal mais provável, segundo estudos do CDC. Mas outros aditivos estão em estudo.

– O fato é que cigarro eletrônico é muito prejudicial, provavelmente até mais do que o cigarro comum, e nós estamos descobrindo isso agora. Isso vem sendo observado nos EUA de maneira que alguns estados estão proibindo a comercialização do cigarro eletrônico. Nós não podemos permitir que essa epidemia chegue ao Brasil – alerta o pneumologista Mauro Gomes, diretor da Comissão de Infecções Respiratórias da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia.

Segundo Gomes, não há benefício do uso de cigarro eletrônico em relação ao cigarro comum, embora a indústria tabagista tenha elaborado uma série de propagandas mostrando o contrário. O médico afirma que todas elas já foram rechaçadas pela Sociedade Brasileira de Pneumologia, que já publicou notas e manifestos públicos desmentindo esses benefícios.

– O primeiro tratamento é conscientizar a população de que esse produto não é mais benéfico do que o cigarro comum – afirma Gomes.

Nos EUA, várias campanhas estão sendo desenvolvidas para atingir principalmente os mais jovens, que não são sensíveis às mensagens tradicionais. A Associação Americana do Coração, por exemplo, destinou 20 milhões de dólares para o treinamento de professores e diretores de escolas.

Diferenças entre cigarro eletrônico e cigarro convencional não diminuem dependência  — Foto: Getty Images
Diferenças entre cigarro eletrônico e cigarro convencional não diminuem dependência — Foto: Getty Images

Eletrônico x comum

Não se pode dizer, por exemplo, que o cigarro eletrônico tem menos substâncias tóxicas do que o cigarro comum. Isso pode ser verdade ou não dependendo do que o indivíduo adiciona à mistura. A principal diferença entre os dois é que o cigarro eletrônico não possui o alcatrão e não produz o monóxido de carbono, que são, realmente, tóxicos. O cigarro comum tem mais de 7 mil substâncias na sua composição – sendo muitas delas cancerígenas – e a nicotina, que causa dependência. No eletrônico, embora não haja alcatrão, há outras substâncias químicas. Mais importante, as concentrações de nicotina, que causam dependência, são altíssimas: a dosagem pode variar de seis a 18 vezes a quantidade existente em um cigarro comum. Para Gomes, na verdade, o fumante está trocando um vício pelo outro.

– No eletrônico, inclusive, há uma concentração de nicotina maior do que no cigarro comum, então a dependência existe e é até mais provável. Por outro lado, a nicotina é dissolvida numa substância chamada propilenoglicol, que quando é acrescida a sua vaporização, se transforma em formaldeído em concentrações de cinco a 15 vezes maiores do que encontradas nos cigarros tradicionais. O formaldeído é conhecido como um agente capaz de provocar o câncer. Ou seja, o cigarro eletrônico também é altamente cancerígeno – acrescentou Gomes.

A explicação mais prática é a de que no cigarro comum acontece a queima (ou combustão) não só do tabaco como também do papel que envolve o cigarro; além de uma série de substâncias químicas que são adicionadas na produção. No cigarro eletrônico, uma solução de nicotina é vaporizada através de calor dentro de um dispositivo, que inicialmente se assemelhava a um cigarro tradicional, mas que atualmente já tem vários outros formatos. Essa solução de nicotina recebe a adição de algumas substâncias químicas, que têm como função modificar o gosto (sabores) ou tornar o vapor que sai mais espesso, entre outras propriedades.

– O cigarro eletrônico, ou vaping, já é utilizado há algum tempo. Porém, o uso de formulações diferentes, com concentrações de nicotina variáveis, e a utilização para o consumo do THC (composto ativo da maconha) podem estar entre as causas da crise que vem acontecendo desde o meio deste ano. O principal problema é a manutenção da dependência da nicotina, pois não existe nível seguro de utilização desta substância. E além disso, a criação de uma nova geração de dependentes, com a utilização dos cigarros eletrônicos pelos jovens – explica Luis Fernando Correia, clínico geral, intensivista e colunista do Papo com o Doc, do EU Atleta.

Jovens estão entre os que mais se sentem atraídos pelo cigarro eletrônico — Foto: Getty Images
Jovens estão entre os que mais se sentem atraídos pelo cigarro eletrônico — Foto: Getty Images

Consequências

Luis Fernando Correia destaca que os cigarros eletrônicos surgiram como uma opção aos indivíduos que queriam tentar parar de fumar. Inicialmente, ele era interessante por eliminar vapor d’água, sem cheiro e com menos substâncias químicas.

Com o tempo, a utilização de sabores, que fazem o gosto do cigarro ficar mais agradável, levou muitos jovens a adotarem a prática. Um outro aspecto que chama a atenção é a utilização de design tecnológico, o que torna o controle paterno mais difícil. A Tobacco Survey mostrou que o consumo do cigarro eletrônico duplicou em cerca de 40.000 alunos do ensino fundamental entre 2011 e 2012, nos EUA. Entre os alunos fumantes convencionais, o uso do cigarro eletrônico foi associado com o tabagismo mais pesado.

Em tese, segundo Correia, a quantidade de substâncias químicas presentes no vapor que é inalado no cigarro eletrônico seria menor do que a do cigarro tradicional. Por outro lado, mantém-se a dependência da nicotina, que por si só leva a uma série de problemas ao organismo, especialmente doenças cardiovasculares e respiratórias.

– A própria fumaça tem ação direta não só no pulmão, mas nas paredes das artérias – alerta o clínico.

Gomes acrescenta que existem outras substâncias no cigarro eletrônico que provocam doenças como fibrose pulmonar, pneumonia por hipersensibilidade e uma série de outras que ainda não foram identificadas, porque, segundo ele, não se sabe de fato o que as pessoas misturam nesse cigarro.

– Essas doenças no pulmão levam à insuficiência respiratória, o indivíduo ao UTI e, posteriormente, levam à morte. Quando não levam à morte, ficam lesões irreversíveis no pulmão, que se traduzem com cirurgia final na fibrose pulmonar. É um produto altamente perigoso. Além disso, o consumo em longo prazo pode causar as mesmas doenças do cigarro convencional, sendo as principais delas o distúrbio do processamento auditivo central (DPAC) e o câncer no pulmão – lista o pneumologista.

Doenças causadas pelo cigarro eletrônico:

  • EVALI ou doença respiratória aguda
  • Fibrose pulmonar
  • Câncer no pulmão
  • Insuficiência respiratória
  • Câncer dos seios da face
  • Enfisema pulmonar
  • Pneumonia por hipersensibilidade
  • DPAC
Os cigarros eletrônicos são vendidos em diversos formatos e cores — Foto: Getty Images
Os cigarros eletrônicos são vendidos em diversos formatos e cores — Foto: Getty Images

Tratamento

Para acabar com a dependência da nicotina, é necessário um suporte médico especializado, que pode ser feito, por exemplo, com a utilização de substitutos, como adesivos e chicletes, com doses progressivamente menores de nicotina. Além disso, é importante o apoio psicoterapêutico associado à prática de exercícios físicos. Gomes afirma que, no geral, os tratamentos para parar de fumar que são aplicados ao cigarro comum podem ser aplicadas ao eletrônico.

Correia afirma que, como os rituais de uso do cigarro eletrônico são diferentes dos do cigarro tradicional, é mais complicado o controle dessas situações.

– No cigarro tradicional sempre havia uma correlação no momento de fumar. Por exemplo: o cigarro após o café. Já com o vaping os mecanismos não são tão claros, o que torna o “desmame” mais difícil – explica.

Fonte: Globo Esporte – Eu Atleta