Doutorandos brasileiros são os estrangeiros que mais recebem bolsas da Fundação para Ciência e Tecnologia (FCT), órgão do governo de Portugal que financia pesquisa científica. Das 1.350 bolsas atribuídas pelo concurso de 2019 da FCT, 62 foram para brasileiros

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Os italianos aparecem em segundo lugar no ranking dos estrangeiros, recebendo 26 bolsas. Em seguida estão os iranianos, com dez bolsas, e espanhóis, com oito.

O número de brasileiros aprovados em concursos da FCT vem em crescimento desde 2016, quando apenas três receberam bolsas. A subida coincide com os períodos mais recentes em que os investimentos para pesquisa científica no Brasil sofreram alterações.

“Esse momento que o Brasil está vivendo é bastante delicado. Esses cortes têm o objetivo de sucatear mesmo. Claro que se intensificou nesse governo, mas não é novo. A gente tem acompanhado isso pelo menos nos três últimos anos. Quando Temer assumiu, já tinha a proposta desse contingenciamento. O governo Bolsonaro aumentou ainda mais”, analisa Fernanda Campos, doutora em Educação, para a Sputnik Brasil.

Fuga de cérebros

Os últimos cortes do governo brasileiro para as verbas da educação atingem a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), que já perdeu cerca de 12 mil bolsas ao longo de 2019, e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que corre o risco de ver seus 80 mil bolsistas sem recursos financeiros nos próximos meses.

“É bastante preocupante, porque para os projetos de desenvolvimento tecnológico no Brasil, é a universidade que dá conta disso, em várias áreas. As empresas não ocupam esse lugar, também não existem tantas parcerias entre empresas e universidades, então o lugar das cabeças pensantes está ali e estão querendo cortar. É bastante delicado para o momento presente, mas para o futuro também”, diz Fernanda Campos.

Com um cenário de incertezas, o exterior acaba se tornando cada vez mais atrativo. A chamada “fuga de cérebros” caracteriza o movimento de saída de pesquisadores do Brasil para outros países, que vão “motivados por uma preocupação, ou uma vontade de continuar esses estudos, e procurando uma segurança no ambiente acadêmico”, avalia a docente.

Portugal não esconde que quer atrair e segurar mão de obra qualificada. O número de bolsas oferecidas pela FCT cresceu 87% nos últimos quatro anos e o recurso atual da instituição, no valor de 616 milhões de euros (mais de 2,8 bilhões reais), são 11% maior do que o do ano passado.

“Os concursos da FCT são muito competitivos. Quem tem as bolsas são os melhores. É muito importante criarmos condições para que bons estudantes brasileiros possam encontrar em Portugal também as condições para poderem estudar. Muitos vinham tradicionalmente com financiamento brasileiro, que é mais raro neste momento devido às prioridades do governo, mas nós continuamos abertos”, diz à Sputnik Brasil o ministro da Educação português, Tiago Brandão Rodrigues.

O ministro considera que estudantes estrangeiros em geral “são absolutamente fundamentais” para o país.

“Temos que continuar a dar resposta positiva, até para aqueles brasileiros que vêm por curtos períodos, em intercâmbios, ou para fazer parte dos seus doutorados. Continuamos a trabalhar para diversificar nossas ofertas e darmos condições, como já fazemos, até para que quem faz o vestibular no Brasil possa também ter acesso ao ensino superior aqui em Portugal”, completa o ministro.

Planejamento

A docente Fernanda Campos acredita que as facilidades de uma mudança para Portugal tornam o país atrativo. “Os vários acordos existentes entre Brasil e Portugal favorecem. Seja em termos de saúde, tem também a língua, e os próprios acordos acadêmicos. Cursos com notas 6 e 7 da CAPES são considerados de excelência, têm reconhecimento de diplomas praticamente automático em Portugal.”

Fernanda avalia que o aumento nas políticas de estímulo ao desenvolvimento científico em Portugal nos últimos anos é real, mas recomenda cautela e planejamento.

“Quando voltam para o Brasil, para reconhecer um diploma português lá é mais difícil. Aqui em Portugal existem bem menos universidades e também são bem menos vagas, então quando abre um concurso público é muito concorrido. Há muita gente que tem doutorado e está trabalhando em outras áreas, se virando, porque não consegue emprego. Se eu puder dar um conselho é: viva o ambiente acadêmico, porque isso é o que vai abrir portas que são muito concorridas.”

Para concorrer a uma bolsa de doutorado pela FCT, o candidato já precisa morar em Portugal com título de residência emitido pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e estar matriculado em um curso de doutorado no país. Os concursos costumam abrir entre os meses de fevereiro e março, com resultados publicados logo antes do início do ano letivo nacional, que ocorre em setembro.

Fonte: Sputnik News